Cidadania Italiana – A interminável busca pela certidão de nascimento do nono

Muitas pessoas me procuram para saber como fiz meu processo de cidadania italiana. Hoje quero contar aqui como tudo começou, como encontrei as certidões e tudo o mais. Mas principalmente como foi a busca pela certidão de nascimento do meu avô. LEMBRANDO que quando realizei meu processo, o Brasil ainda não havia assinado o Acordo de Haia e por isso era obrigatório passar pelo Consulado Italiano.

Em 2012 fizemos uma viagem para Londres e Paris e simplesmente decidimos que este era nosso lugar no mundo: a Europa. Voltamos decididos a investir no reconhecimento de minha cidadania e das meninas para logo então mudar para algum país europeu (Madrid, aqui estamos!!)

Mas também voltamos decididos a ter mais um bebê, desta vez um menino. Por isso, fomos a uma clínica indicada pela minha gineco, onde trabalhava uma médica especialista em reprodução e que iria nos ajudar a encomendar um gurizinho. Chegando lá, me deparo na porta com um sobrenome igual ao meu e imediatamente peço para falar com o tal médico. Conversa vai, conversa vem, ele era um primo distante, que perdeu o contato depois da morte da minha avó, mas que me conhecia de pequena e se lembrava de mim. Comentei de nossos planos, da intenção de reconhecer a cidadania, mas que eu não sabia nem por onde começar, uma vez que nem imaginava onde nosso bisavô havia nascido na Itália, nem quando e menos ainda quando havia chegado. Foi neste momento que ele me olhou, disse que tinha um presente para me dar, abriu a gaveta de sua mesa e colocou nas minhas mãos a certidão de nascimento italiana do bisnono. Uau!!!

certdão de nascimento italiana
Presente que caiu do céu!

Podem imaginar minha cara neste momento? Podem imaginar tudo o que passou pela minha cabeça? Tive vontade de chorar, de gritar, de pular. Além do nascimento, ele tinha o casamento e o óbito. Que presentão!! 🙂

Bom, no meu entendimento eu tinha conseguido o mais difícil. E de fato era. Conseguir uma certidão de um antenato italiano, de quem não se sabe praticamente nada, é uma tarefa árdua. Para muitos, impossível. Pra completar, nosso sobrenome havia mudado em algum momento da história, entre os nascimentos dos meus tios-avôs, avô, nem ideia! Mas na verdade, bem na verdade, o meu mais difícil ainda estava por vir…

Com as certidões do biso em mãos, tinha que correr atrás das certidões do vô, pai da minha mãe. Ah,  “easy-peasy” pensei. Molezinha. Sei onde ele nasceu, onde casou, onde morreu. Tá na mão. Só que não. Casamento e óbito, sim. Todas em Porto Alegre, liguei para o cartório em um dia, no outro só ir buscar. Mas e o nascimento? Não estava na cidade onde ele nasceu. Aliás, na época lá não existia cartório. Os registros estavam em um cartório que ficava na principal cidade da região na época, mas a do meu avô não. Nem na do lado, nem na mais adiante, nem na que ele foi morar já maiorzinho. Em nenhum cartório da 4ª Colônia. Nem nas igrejas. Encontrei as certidões de batismo de quase todos os irmãos dele, mas as dos filhos dos meus bisavós nascidos no intervalo de tempo próximo ao meu avô, nada.

Quarta Colônia é o nome dado à região do Rio Grande do Sul onde ocorreu o quarto assentamento de imigrantes italianos chegados ao sul do país. Os três primeiros foram Campo dos Bugres (Caxias do Sul), Dona Isabel (Bento Gonçalves) e Conde d’Eu (Garibaldi).

Fiz todo o tipo de busca que podem imaginar. Primeiro, pedi a habilitação de casamento dele, onde deveria constar um documento usado para comprovar sua identidade, no caso o RG ou certidão de nascimento. Pois o danadinho se casou com a carteirinha militar, onde não constavam informações do seu registro de nascimento.

Então, um tio me disse que ele sempre contava a história de que havia se “auto registrado” para poder servir ao exército. Fizemos buscas nos arquivos do exército, mas nada foi encontrado. Infelizmente o batalhão ao qual ele serviu já não existe mais e o que sobrou dele foi transferido para outro estado e depois para outro e sabe como é, documentos foram sendo deixados pelo caminho… Mais uma vez minhas buscas deram em nada!

Minha próxima pista vinha da minha mãe. Ele havia sido seminarista quando bem jovem, aproveitando que um irmão era padre. Me disse ela que foi para fugir do trabalho na roça, hehehehe. Mas enfim, fomos ao tal seminário buscar pistas. Encontramos até o boletim dele, com suas notas e avaliações de comportamento, mas nada que nos levasse à certidão.

Ele era funcionário público, reviramos os arquivos que tivemos acesso na prefeitura de Porto Alegre. Fui ao Arquivo Público, grávida de 8 meses, num calor absurdo, e passava o dia inteiro lá olhando livro por livro, folha por folha dos livros de registro que eles tem guardados e que poderiam conter a certidão dele, uma vez que tudo indicava que ele havia sido registrado tardiamente. Devo ter olhado mais de 100 livros. Nada, nada.

Enquanto isso, uma busca era feita a pedido da Corregedoria em todos os cartórios do estado. As respostas, quando chegavam, eram negativas. Muitas não recebi até hoje.

Fiz uma lista com todos, TODOS os cartórios de Registro Civil do Rio Grande do Sul.

Pausa para um bebê nascer…

descendente de italiano
Graças a esta pessoinha nossa epopeia italiana teve início

Durante minha licença maternidade, liguei para os cartórios da minha lista. Nada. A situação era desesperadora.

Fomos duas vezes até a região da 4ª Colônia, batemos de porta em porta nos cartórios, visitamos as cúrias da região, até em igrejinhas perdidas no meio do nada nós tentamos. Vimos cada pedaço de história, cada papel, cada lugar. Não achamos nada, mas aprendemos tudo. Aprendemos que aquela italianada toda chegou em um pedaço de terra totalmente despovoado, onde só tinha mato. Abriram estradas, construíram casas, constituíram família. Ajudaram a construir um país.

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Passávamos por aquelas estradas todas sinalizadas, asfaltadas, iluminadas e imaginávamos como havia sido quando colocaram seus pés ali pela primeira vez. Caminharam no meio do mato, na escuridão, com fome, frio, sede. Carregando seus filhos nos braços. Sujeitos ao ataque de animais. Se instalaram no meio do nada e ali começaram uma nova vida, sem certeza de coisa alguma. E provavelmente com saudades da sua bella Itália! Naquele momento senti um profundo orgulho dos meus antepassados. Que guerreiros foram, que valentes! Eu não podia desistir! Nas minhas veias corre esse sangue e hoje morando em Madrid e tendo feito o caminho de volta, mesmo que em melhores condições, tenho certeza absoluta disso!

Imigrantes italianos cidadania italiana
Taí a gringalhada toda! Meu avô é o primeiro da esquerda para a direita e no centro, sentados, meus bisnonos.

Mas eu já havia esgotado as possibilidades. Já havia falado com parentes que nem sabia que existiam (e conheci muita gente boa, primos, tios, pessoas que mantenho contato ainda hoje), já havia enchido todo mundo de perguntas e nada me levava a bendita certidão de nascimento do meu amado avô. Acho que se eu acreditasse em espiritismo teria até tentado um “contato imediato” para perguntar hahaha. Mas não, não sabia mais o que fazer. Então decidi registrá-lo!

imigração italiana
Fizemos uma viagem no tempo <3

Ao não encontrar a certidão original do meu avô, fui ao consulado e perguntei o que poderia fazer. Levei o que tinha até o momento. Foi então que, analisando a certidão de casamento em inteiro teor do meu bisnono, o funcionário responsável por cidadanias, muito direto e atencioso disse: “sua cidadania está reconhecida neste documento, onde seu bisavô declarou um por um os filhos que teve. Basta fazer um suprimento da certidão que falta”. Deixa eu explicar: meus bisavós haviam se casado apenas na igreja e, anos depois, filhos todos nascidos, decidiram se casar no civil. Então, na certidão constava o nome e idade de cada criança. E graças a isto pude comprovar quem era meu avô e que ele havia nascido, sim! Procurei alguém pra me ajudar e, juntando todas as provas que tinha da não existência do documento, entrei com uma ação de registro tardio. Mas enquanto eu esperava, continuava procurando. Várias noites na semana ia até a igreja dos mórmons, que guarda um registro fantástico dos documentos de registro civil das mais diversas épocas e locais e procurava. Ficava em torno de duas horas olhando microfilmes de livros, com registros de mais de 100 anos, com letras perfeitamente desenhadas e outras praticamente ilegíveis, uns rabiscos. Ainda assim consegui encontrar os registros de quase todos os filhos do meu bisavô. Siiim, encontrei quase todos!! Menos o do meu avô 🙁

Enquanto isso, o fórum perdia meu processo, minha advogada não havia se preocupado em fazer cópias dos documentos juntados e tive que ir atrás de tudo outra vez. Novo processo, mais espera, mais descaso da advogada que demorava em responder a cada pedido do juiz. Vou eu ficar sentada esperando? Nãnãninãnão!! Fui até o fórum e tomei o controle da situação. Deixei a advogada de lado e comecei eu mesma a providenciar tudo o que era solicitado pelo juiz. Ele pedia em um dia e no outro eu já estava correndo atrás e juntando ao processo. Felizmente, fui atendida por um funcionário que, envergonhado pela perda do primeiro processo, me atendia pessoalmente e me orientava em tudo o que eu tinha que fazer. Em pouco menos de um mês, saí do fórum com a ordem judicial para registrar meu avô.

Quanta emoção quando cheguei ao cartório e disse: “Meu avô não teve uma certidão de nascimento e estou aqui para fazê-la!” Naquele momento, chorei. O funcionário, espantado, me perguntou: “Mas seu avô ainda vive?” “Não, hoje ele teria 117 anos.””PUXA!! Que legal, é a primeira vez que faço um registro desse!”

certidao de nascimento
Enfim, ela é minha!

A estas alturas, minhas outras certidões já estavam traduzidas e legalizadas pelo consulado italiano. Só faltava a certidão do velho Damião (Damiano de nascimento). No mesmo dia encaminhei-a à tradutora e dois dias depois estava legalizando-a no Eresul e no consulado (hoje estes dois procedimentos não são mais necessários).

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Enfim, depois de três anos de buscas, dúvidas, perguntas sem resposta, choro, desespero, desânimo mas muita perseverança, tinha tudo em mãos para voar para a Itália e ter reconhecido o meu direito a cidadania italiana. Mas isso já é uma outra história…

Aqui eu conto como foi minha chegada na grande bota e aqui como fiz meu Codice Fiscale. E neste post eu conto nossa aventura indo pra Itália com apenas 45 euros na carteira!

Procurando hotel na Itália? 

Ah, já ia esquecendo… Como ficou a história de fazer um gurizinho, que foi a razão que nos levou a puxar o fio desta história toda? Ficou que por mais que as probabilidades, a ciência, as técnicas nos digam que é possível, não está nas nossas mãos escolher. A Maísa veio pra aumentar o nível de progesterona desta casa!

“O coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa dos lábios vem do SENHOR.”

 

2 Respostas para “Cidadania Italiana – A interminável busca pela certidão de nascimento do nono”

  1. Meu caso é parecido com o seu,
    meu trisavô é italiano, mas não localizo a certidão do meu bisavô, achei uma certidão inteiro teor de nascimento , mas nela consta que ele mesmo se registrou, nela consta assim:
    “Aos vinte e cinto dias do mez de Abril, de mil novecentos e trinta e dois, nessa cidade de Castro, em meu cartório compareceu Paschoal Amato, e por ele foi me declarado que no dia vinte e nove de março de mil novecentos e dez nasceu o declarante Paschoal Amato ”
    você saberia me informar se essa certidão vale ?
    Obrigado!

    1. Diogo, para dirimir quaisquer dúvidas, leve a certidão ao consulado da Itália. Lá eles te dirão se vale, mas se é um documento público, nao tem porque nao ser aceita. Era bem comum na época eles se auto registrarem. Meu avô se auto registrou, mas não encontramos este registro. E seria válido.
      Boa sorte!

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